Fui um aluno aplicado no colégio. Se não aplicado, pelo menos bem sucedido. Tirava notas muito boas mesmo estudando sempre em cima da hora para toda e qualquer prova que tenha feito. Professores e diretores puxavam carinhosamente o saco daquele jovem largadão e descabelado que era eu. Meu desempenho, junto aos de uns outros nerds, era usado para promover o ensino "puxado" do colégio.
Um dos diretores da escola mostrava tanto apreço por mim que me ofereceu a oportunidade de frequentar as últimas aulas de revisão para vestibular oferecidas pelo colégio quando eu já não era matriculado lá há uns dois anos. Fez isso ao saber que eu estava deixando minha primeira faculdade para tentar ingressar em outro curso. Meio naquele esquema "você já é da casa, brô". Uma graça, realmente.
Mas fico pensando o que esse simpático cidadão acharia se soubesse de minhas opiniões e sentimentos acerca da instituição da qual faz parte, e a qual defende veementemente...
Desculpem-me pela falta de moderação (ou espírito esportivo, sei lá), mas porra, como eu odeio aquela escola!
O tédio, o incentivo à competitividade exagerada, os problemas de grande importância resolvidos no jeitinho malaco de ser brasileiro, a humilhação por alunos mais velhos, o destrato de professores com alunos e vice versa, o não pertencer... tudo isso deixou marcas e precisamente por isso fez-me capaz de ser categórico em criticar nua e cruamente, sem moderação hipócrita e intelectualismo bocó, não só a educação escolar que tive (ou sofri), mas da educação escolar no geral, que não passa muito longe do meu exemplo particular. Menos que isso seria faltar com respeito ao adolescente que fui, a uma história longa vivida em toda sua extensão e intensidade.
Qualquer discussão elegante sobre reformas pedagógicas "importantíssimas" e super up to date que ignore o tópico "a escola é um saco" está girando em círculos. Está, antes de mais nada, divorciada de uma voz de criança, de moleque, de adolescente, enfim, de quem se pretende educar. A voz da criança e do jovem vem de dentro, não cita respeitáveis fontes bibliográficas para se fazer valer, e está inacessível para quem já se esqueceu da própria história. Minha tristeza é perceber justamente isso: as pessoas já crescidas falam do ambiente escolar como quem não passou por lá jamais! Escutam uma crítica mordaz à escola e vêm logo com papinhos estilo "ah, mas não é bem assim! Não precisa chutar o pau da barraca! Não se pode olhar pra essas coisas com um olhar tão de moleque, assim". Essa é a causa, creio, do abismo enorme entre educadores e alunos.
Sem falar na total falta de senso de realidade das instituições de ensino no geral em relação às exigências do programa, tanto no conteúdo propriamente dito quanto na quantidade. "Ah, mas isso, isso e isso daqui é o mínimo que eles (os alunos) têm que sair daqui sabendo". Porra, criatura! Acorda pra vida! Isso tudo que se pretende ensinar como "básico e obrigatório" já não está sendo aprendido por ninguém! A gente deixa a escola - e a faculdade, onde esse absurdo se repete - com um pentelhésimo assimilado de tudo o que foi penosamente martelado pelos coitados dos professores. É um desperdício abismal de tempo e dinheiro. Você sabe o que é estar em plena explosão hormonal, cercado de pernas desnudas, num calor desgraçado, agitado, frustrado sexualmente por conta de uma ideia contemporânea imbecil de que gente de treze anos é jovem de mais pra transar (ou fazer qualquer coisa, basicamente), e ter que ficar parado igual um maldito prisioneiro na sua cadeira enquanto um cidadão ou cidadoa resmunga sobre rochas metamórficas, Bhaskara ou pronome pessoal do caso oblíquo? Pô, chato, né? Ainda mais quando é todo dia, por um período bem longo.
O fato é que eu, aluno nota dez, bolsista e o escambal, deixei a escola com menos conhecimento do que seria de se esperar. Vejo trabalhos de outros alunos do ensino superior (de instituições renomadas) e constato, em alguns casos, que seu aproveitamento escolar não bastou sequer para fazê-los capazes de redigir inteligivelmente um texto, o que é trágico.
E o que é pior: deixei a escola completamente despreparado para a vida. Completamente perdido, meio assustado, e num estado bem chato de virgindade existencial. Típico de quem ficou encarcerado num ambiente isolado do mundo real. Aliás, duas coisas fazem da minha antiga escola um exemplo icônico desse problema (o isolamento da realidade), que é geral. São elas: a presença de uma favela bem em frente ao colégio, que dela se protegia com grades e arbustos tornando impossível para os de dentro verem o mundo de fora e vice versa, e a brancura hospitalar das salas de aula. Assisti recentemente um vídeo em que Lowen (psiquiatra e psicoterapeuta estadunidense que muito me agrada) cita experimentos científicos nos quais pessoas foram submetidas a ambientes com nenhuma estimulação sensorial. Depois de um tempo nessa situação, o cidadão começa a alucinar. É a própria sala de aula em que estudei: branca, janelas com vidro escuro (não se podia ver sequer o céu), a imobilidade obrigatória e apenas um som sempre constante e igual - a voz monótona de quem explica, explica, explica... Logo a voz do professor se faz imperceptível, menos barulhenta do que um súbito silêncio.
Nessa situação meio morta, minha solução mais frequente, quase constante, era voar para um mundo imaterial de distrações, fantasias, diálogos silenciosos com personagens da minha própria cabeça, etc. Nos momentos mais razoáveis, desenhava no caderno. Aprendi a ser um fantasma, um espírito desencarnado.
Saí da escola cheio de raivas, e tomei tanto na cabeça para começar a me acertar com o mundo da concretude, dos relacionamentos, do sexo, do álcool, da Universidade, da vertigem, do trabalho em equipe, da organização, da responsabilidade, do dinheiro e do viver em geral que por vezes afundei em depressão, tive ataques de raiva, destruí coisas. Senti-me traído, desamparado, deformado e injustiçado pelo mundo ao meu redor. Só pude concluir que fui educado para aterrissar na idade adulta como um completo mongol.
Eis porque assumo diante da educação escolar e universitária uma atitude de "ah, meu quem vocês tão querendo enganar?".
Enfim, peço desculpas a eventuais leitores pelo clima down deste texto (que até foi revisado com bastante bom humor), por não dar destaque aos bons momentos (poucos), aos bons professores, aos amigos que fiz e as histórias tragicômicas que toda minha vida escolar gerou. Aqui eu tava mais na vibe desabafo, mesmo.
Não pretendia também propor qualquer solução para tudo que eu tanto critico, mas ocorreu-me, ao reencontrar-me com a minha própria história, fazer justamente a seguinte sugestão (ou apelo): que você, criatura que lê, não se desligue da criança que você foi, do aluno que você foi e que ainda é. Render-se à fala impessoal, difícil e falsamente moderada do mundo adulto rouba-nos nossa voz e autenticidade.
Escola é um saco!
Justíssimo. Acho que nunca vi descrição mais autêntica do que é o mundo escolar contemporâneo. Falo também com conhecimento de causa que a escola era um saco, e que o ambiente não propiciava nenhum aprendizado. Não é por menos que a medicalização social nas escolas toma níveis descomunais hoje em dia. Enfim, adorei o texto. Assino embaixo, mas com uma ressalva: o debate entre os pedagogos continua sendo válido. De fato são poucos os que levam a sério a reformulação do sistema educacional tomando como base críticas dos próprios alunos, mas existem. Não podemos acreditar que esse é o fim, mas se esperarmos que esse fluxo siga para uma melhoria, estaremos enganados. Vigiar e punir, já dizia Foucault...
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