Esta conversa tem lugar em uma gruta escura,
parcialmente iluminada por uma pequena fogueira crepitante.
O mestre mira o jovem discípulo. As longas barbas
daquele, bem como seu ar majestoso de ancião, não bastam para ofuscar o brilho
jovial, até infantil, dos seus olhos. No entanto, é com seriedade que ele se
dirige ao aprendiz:
- Você, filho do Ar, deve administrar sua
natureza com cuidado, para que ela não se torne um mal perigoso para você. A
ignorância de seu potencial faz com que suas energias se percam e fluam de
maneira pouco proveitosa.
- Como assim? - pergunta o rapaz. É um garoto com
ar inocente e, neste momento, curioso - Não entendo como meu próprio potencial
possa ser perigoso sem que eu ao menos lhe conceda alguma atenção.
- Ora, você está vivo, rapaz, e o tempo não
deixará de transcorrer só porque você está desatento a ele. Seu potencial não
está congelado enquanto você é inconsciente a respeito dele. É como um barco a
navegar na água: se deixá-lo sem governo, o Vento não deixará de soprar-lhe as
velas.
- Mas não poderei garantir onde vou parar, certo?
- E nem a velocidade com que viajará. É preciso
canalizar seus poderes, jovem rapaz, para que eles não o conduzam por caminhos
indesejados.
- Mas, como posso dominar algo tão sutil e
invisível, Mestre?
- Há muitas etapas. Medite em sua respiração o
máximo possível. Após se alinhar com ela, passe a controlar seus passeios
mentais - o vento que lhe entra pelas narinas conduz o barco. Assim, evitará
ser levado descontroladamente a locais inóspitos ao espírito. Dançar com os
pensamentos faz parte da tarefa de quem se propõe a dançar com o Ar, jovem.
- Parece-me confusa essa relação...
- É mesmo? E como se chama, em sua terra, ao
garoto que facilmente se dispersa?
- Aéreo... Chegam a dizer que vive nas nuvens.
- Exato. Mas no entanto é preciso manter os pés
enraizados no chão, para não se perder nas nuvens dessa forma.
O garoto parece constrangido:
- Sabe, Mestre, tenho grande dificuldade para
isso.
- Faz muito sentido. Pense bem: você passou boa
parte de sua vida inconsciente das suas faculdades, e elas se voltaram a você,
em alguns momentos, como prejuízo.
O mestre aponta com a cabeça para a fogueira ao lado deles, e o discípulo dirige o olhar para ela, contemplando as chamas em sua agitação ondulada.
O mestre aponta com a cabeça para a fogueira ao lado deles, e o discípulo dirige o olhar para ela, contemplando as chamas em sua agitação ondulada.
- O Fogo sagrado, de poder interminável e ação
purificadora, se deixado de lado por uma atitude desatenta, pode vir a queimar
seu lar, e tudo a sua volta. Você, filho do Ar, se não conhece sua própria
natureza, tende a perder-se nas nuvens, ou sufocar a si próprio.
O rapaz já parece mais confortável:
- Entendo... - balança a cabeça devagar - Agora
eu entendo. Mas, o que mais posso fazer para mudar essa situação?
- Por ora, há mais um passo inicial importante. É
preciso que você exerça constantemente sua criatividade. Dê asas à sua
imaginação, para que ela possa ser embalada pelo vento que lhe corre por dentro.
- Pensei que a imaginação fosse feita de ilusões,
Mestre.
- Não necessariamente. Esse pensamento tira-lhe
as forças, jovem! Veja, você é filho do Ar. Dentro de você, existe a força
que anima! Se deixar seu vento soprar, no exercício
criativo, ele dará vida a coisas belas e você se sentirá mais leve, aliviado.
Essa é a primeira e mais fundamental das mágicas que você dominará. Se, no
entanto, você guardar todo esse sopro vital em seu interior, ele se acumulará,
e você será engolido pelo vendaval subsequente.
Novamente o jovem balança a cabeça em
entendimento. Faz-se um breve silêncio enquanto o aprendiz sente o ar entrar
por suas narinas, encher seu corpo e então deixá-lo esvaziar-se.
- Mestre, mal posso esperar para colocar em
prática estes ensinamentos.
- Fico muito feliz em ouvi-lo dizer isso. Mas
lembre-se: disciplina e atenção serão suas pernas nessa jornada. Para o que
puder, estarei ao seu lado.
O fogo já começa a cessar.
