segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Eu e o rock'n'roll

Às vezes me desentendo com o rock'n'roll. Chego a temê-lo e a julgá-lo demasiadamente sombrio. O que me puxa para ele, entretanto, e o que me encanta nesse estilo sexual e barulhento de música, é sua organicidade, que sobrevive à eletrificação dos instrumentos e ainda funde-se maravilhosamente a ela.
A música que sai do rádio e dos canais musicais de TV nos dias de hoje tem um certo cheiro meio Pinho Sol, meio bom ar. É completamente asséptica e higienizada. Tudo afinado, todas as linhas sonoras claramente distinguíveis umas das outras, tudo cuidadosamente mixado e masterizado...

... e tudo uma bosta. Tudo chato.

Tudo se torna muito óbvio aos ouvidos, porque já vem pré-mastigado para que você receba cada canção com a passividade de uma lesma com pressão baixa. A voz é sempre muito destacada, e os instrumentos importam cada vez menos, de forma que a fruição do colorido sonoro vai para o saco. Junto dessa pobreza, vêm-se desenvolvendo formatos cada vez mais sintéticos de arquivos de áudio, limando cada vez mais as frequências sonoras menos audíveis para a maioria de nós - que ficamos cada vez mais incapazes de ouvir com precisão. Juntando todas essas observações, parece que o plano é emburrecer nossos ouvidos, quiçá atrofiá-los por completo.
Aí vem um cara como o Slash e grava um álbum com a banda toda tocando junta - como o Led Zeppelin fazia nos anos setenta - e soa tudo tão vivo, tão mais rico e mais verdadeiro...
Mesmo bandas de rock hoje em dia gravam cada instrumento separadamente. O senso rítmico dos músicos (baterista em particular) é substituído pelo pelo clique norteador do metrônomo digital, e não sobra espaço para qualquer oscilação no pulso da música. Fluidez é diferente de falta de ritmo: nosso organismo funciona de maneira ritmada (a música surge da expressão de um biorritmo, não é mesmo?), mas não robótica. O aumento da excitação nos acelera; momentos de ternura nos acalmam e baixam nosso giro.
Essa é a grande diferença que o rock'n'roll representa na música de hoje em dia. É, para a surpresa de muitas velhinhas religiosas, mais humano. Não é de porcelana, e não cheira Pinho Sol. Cheira gente, cheira pele, cheira suor, sangue, terra. O rockeiro é um ser que está em maior contato com a própria sombra, mais consciente de seus vícios e falhas, e mais propenso a chutar a porta ou meter o pé na jaca quando a ocasião pedir. Ao mesmo tempo, e justamente por tudo isso, é um ser eminentemente amoroso.
Observação importante: falo aqui de como vejo o cidadão que de fato entende e pensa o rock. Estou ciente de que são poucos e que a grande maioria dos fãs declarados do gênero (geralmente os mais preocupados com essa coisa de pertencimento a uma tribo) são adolescentes retardados de todas as idades.

Fui tentar tirar (aprender com os ouvidos) aquela porra de música chamada "Halo", do já mencionado guitarrista de cartola, e me frustrei completamente na hora de tirar o solo de guitarra, o qual ostenta uma sensibilidade e espontaneidade grandes por parte do músico, e no entanto possui trechos os quais, misturados à massa sonora da música, ficam praticamente ininteligíveis. São tocados com uma agilidade que não foi construída pela repetição incansável de exercícios técnicos (ginástica para os dedos, coisa de guitarrista nerd), mantendo um caráter até meio sujo em sua execução. Outros trechos exibem uma técnica tão peculiar ao artista que é perda de tempo aprender a reproduzi-la tal como foi registrada. Leva muito tempo, e se torna algo inaplicável em qualquer outro contexto musical, a menos que você não ligue de parecer um artista cover em tempo integral.
Frustrante ou não, a música do Slash tende a obrigar o fã guitarrista a ser autoral, mesmo na hora de tocar música alheia. Você vai ter que se ater ao que que é essencial naquilo que está ouvindo, e descobrir sua própria maneira de preencher o resto da música. Claro que tem um monte de trouxa que vai se matar para tocar nota por nota como seu ídolo, e muitos vão conseguir. Grande coisa!

Apesar do glamour idiota e da imagem de machões poderosos exibidos pelas grandes bandas, para mim o rock guarda em si o sentido de uma vida simples. São músicas orgânicas, e há uma certa paixão em seguir fazendo as coisas de maneira despojada e sendo fiel ao que se gosta, mesmo que isso signifique ser refratário ao que é imposto como novo e moderno. Rock me remete a calça jeans, a beber com os amigos, a sentar numa cadeira de balanço, a experimentar pedais de overdrive para observar que nuances podem acrescentar ao seu som de guitarra. Remete a solar usando só três dedos e estar feliz com isso.
É simples, é elegante, e é meio fuleiro, ao mesmo tempo.
Acho que gosto muito por isso.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Here's Johnny!



Fiz esse desenho do Johnny Depp há um bom tempo, numa aula de desenho do meu grande professor Emerson. Foi baseado numa foto de revista, cujo fotógrafo eu não faço a menor ideia de quem seja (sorry, cara). Infelizmente não deu pra escanear ele todo e ficou faltando um pedacinho embaixo.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Writing cure

Conversei bastante com o meu amigo Jow nos últimos dias. Aparentemente estávamos ambos passando por uma fase meio trash. Eu, em especial, estava saindo de um relacionamento longo com uma menina de quem sempre gostei muito. Já não andava nos meus dias mais equilibrados antes disso ocorrer, e acabei fazendo algumas coisas do tipo que não se vê na novela das sete. Pra completar o quadro, briguei feio em casa e tive que vir morar com o meu pai (são divorciados, os meus pais). Minha mãe, sempre exausta, e sempre preocupada com tudo e com todo mundo - principalmente comigo -, resolveu não aguentar mais o estresse e tirou umas férias de mim, pra se recompor do desgaste que vinha sofrendo e não surtar feio. Teve realmente seus motivos, afinal, eu às vezes sou uma presença meio... ruidosa.
Acontece que eu já estava num momento um tanto quanto doído e foi bem desagradável não encontrar o apoio que desejava naquela hora. Ninguém da minha família vai sequer pensar em colocar nestas palavras, mas desconfio que fui elegantemente expulso de casa. Sei que tem um pouco de exagero nisso, mas fico me achando meio indesejado, não é de hoje. Sou uma espécie de filho-peteca: vou sendo revezado de um lado pro outro de tempos em tempos, conforme a conveniência.
O fato é que, conversando com o Jow sobre as situações cagadas que já nos aconteceram e sobre as besteiras homéricas que já cometemos, e tirando sarro de tudo isso, de repente me toquei que o mais importante de tudo é que a gente se diverte pra caralho, mesmo em momentos meio sombrios da vida. Mesmo sangrando por dentro.
Acho mesmo que estou começando um momento precioso da minha existência.

Mesmo sangrando por dentro.

Falando em momento, tive um tão singelo e tão bonito na manhã do último sábado que parece que me lembrei de uma felicidade meio esquecida. Fiquei contente demais. Só não rola contar, porque é meio pessoal demais.
Tive também umas outras alegrias recentemente. Na semana anterior a esta última encontrei não só o Jow mas também o Fred. Deus do céu, como se fala besteira com os amigos... Nunca ri tanto. Você coloca três mongol numa mesinha de shopping, num final de semestre meio árido, meio arrastado, e xablau! Parece que todos são humoristas de stand-up diplomados.

Diante disso tudo, sou realmente levado a acreditar que não sou tão extraterrestre quanto me sinto quando as pessoas cochicham sobre o meu comportamento, que fazer besteira é aprendizado, e que as minhas dores, aparentemente exageradas, são coisas da alma humana. Acho que quem não passa por esses momentos trashs da vida, e se orgulha muito da sua reputação com cheiro de alvejante de embalagem cor-de-rosa, geralmente são pessoas que não vivem. Que atravessam uma interminável fase de latência existencial e que não vão ter estórias legais pra contar pros próprios filhos no dia da macarronada.
Com todos os meus problemas, eu me sinto feliz. Não queria ter tido outra mãe, outro pai, nem nada do tipo. Nem queria uma história que não me permitisse ter descoberto as muitas paixões que hoje me movem.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Desenhos feitos no Colégio! Direto do baú!

A última coisa que publiquei aqui foi um texto áspero sobre a minha vida escolar. Em algum momento comentei que, na falta do que fazer da sala de aula, minha solução em muitos momentos era desenhar.
Eis o que eu desenhava:




Achei isso numa pasta dentro do meu armário, e apesar de não serem exatamente os trabalhos mais bem realizados que já produzi, eu achei uma graça.

domingo, 4 de maio de 2014

Escola de novo (você sai dela, mas ela demora a sair de você)

Fui um aluno aplicado no colégio. Se não aplicado, pelo menos bem sucedido. Tirava notas muito boas mesmo estudando sempre em cima da hora para toda e qualquer prova que tenha feito. Professores e diretores puxavam carinhosamente o saco daquele jovem largadão e descabelado que era eu. Meu desempenho, junto aos de uns outros nerds, era usado para promover o ensino "puxado" do colégio.
Um dos diretores da escola mostrava tanto apreço por mim que me ofereceu a oportunidade de frequentar as últimas aulas de revisão para vestibular oferecidas pelo colégio quando eu já não era matriculado lá há uns dois anos. Fez isso ao saber que eu estava deixando minha primeira faculdade para tentar ingressar em outro curso. Meio naquele esquema "você já é da casa, brô". Uma graça, realmente.
Mas fico pensando o que esse simpático cidadão acharia se soubesse de minhas opiniões e sentimentos acerca da instituição da qual faz parte, e a qual defende veementemente...
Desculpem-me pela falta de moderação (ou espírito esportivo, sei lá), mas porra, como eu odeio aquela escola!
O tédio, o incentivo à competitividade exagerada, os problemas de grande importância resolvidos no jeitinho malaco de ser brasileiro, a humilhação por alunos mais velhos, o destrato de professores com alunos e vice versa, o não pertencer... tudo isso deixou marcas e precisamente por isso fez-me capaz de ser categórico em criticar nua e cruamente, sem moderação hipócrita e intelectualismo bocó, não só a educação escolar que tive (ou sofri), mas da educação escolar no geral, que não passa muito longe do meu exemplo particular. Menos que isso seria faltar com respeito ao adolescente que fui, a uma história longa vivida em toda sua extensão e intensidade.
Qualquer discussão elegante sobre reformas pedagógicas "importantíssimas" e super up to date que ignore o tópico "a escola é um saco" está girando em círculos. Está, antes de mais nada, divorciada de uma voz de criança, de moleque, de adolescente, enfim, de quem se pretende educar. A voz da criança e do jovem vem de dentro, não cita respeitáveis fontes bibliográficas para se fazer valer, e está inacessível para quem já se esqueceu da própria história. Minha tristeza é perceber justamente isso: as pessoas já crescidas falam do ambiente escolar como quem não passou por lá jamais! Escutam uma crítica mordaz à escola e vêm logo com papinhos estilo "ah, mas não é bem assim! Não precisa chutar o pau da barraca! Não se pode olhar pra essas coisas com um olhar tão de moleque, assim". Essa é a causa, creio, do abismo enorme entre educadores e alunos.
Sem falar na total falta de senso de realidade das instituições de ensino no geral em relação às exigências do programa, tanto no conteúdo propriamente dito quanto na quantidade. "Ah, mas isso, isso e isso daqui é o mínimo que eles (os alunos) têm que sair daqui sabendo". Porra, criatura! Acorda pra vida! Isso tudo que se pretende ensinar como "básico e obrigatório" já não está sendo aprendido por ninguém! A gente deixa a escola - e a faculdade, onde esse absurdo se repete - com um pentelhésimo assimilado de tudo o que foi penosamente martelado pelos coitados dos professores. É um desperdício abismal de tempo e dinheiro. Você sabe o que é estar em plena explosão hormonal, cercado de pernas desnudas, num calor desgraçado, agitado, frustrado sexualmente por conta de uma ideia contemporânea imbecil de que gente de treze anos é jovem de mais pra transar (ou fazer qualquer coisa, basicamente), e ter que ficar parado igual um maldito prisioneiro na sua cadeira enquanto um cidadão ou cidadoa resmunga sobre rochas metamórficas, Bhaskara ou pronome pessoal do caso oblíquo? Pô, chato, né? Ainda mais quando é todo dia, por um período bem longo.
O fato é que eu, aluno nota dez, bolsista e o escambal, deixei a escola com menos conhecimento do que seria de se esperar. Vejo trabalhos de outros alunos do ensino superior (de instituições renomadas) e constato, em alguns casos, que seu aproveitamento escolar não bastou sequer para fazê-los capazes de redigir inteligivelmente um texto, o que é trágico.
E o que é pior: deixei a escola completamente despreparado para a vida. Completamente perdido, meio assustado, e num estado bem chato de virgindade existencial. Típico de quem ficou encarcerado num ambiente isolado do mundo real. Aliás, duas coisas fazem da minha antiga escola um exemplo icônico desse problema (o isolamento da realidade), que é geral. São elas: a presença de uma favela bem em frente ao colégio, que dela se protegia com grades e arbustos tornando impossível para os de dentro verem o mundo de fora e vice versa, e a brancura hospitalar das salas de aula. Assisti recentemente um vídeo em que Lowen (psiquiatra e psicoterapeuta estadunidense que muito me agrada) cita experimentos científicos nos quais pessoas foram submetidas a ambientes com nenhuma estimulação sensorial. Depois de um tempo nessa situação, o cidadão começa a alucinar. É a própria sala de aula em que estudei: branca, janelas com vidro escuro (não se podia ver sequer o céu), a imobilidade obrigatória e apenas um som sempre constante e  igual - a voz monótona de quem explica, explica, explica... Logo a voz do professor se faz imperceptível, menos barulhenta do que um súbito silêncio.
Nessa situação meio morta, minha solução mais frequente, quase constante, era voar para um mundo imaterial de distrações, fantasias, diálogos silenciosos com personagens da minha própria cabeça, etc. Nos momentos mais razoáveis, desenhava no caderno. Aprendi a ser um fantasma, um espírito desencarnado.
Saí da escola cheio de raivas, e tomei tanto na cabeça para começar a me acertar com o mundo da concretude, dos relacionamentos, do sexo, do álcool, da Universidade, da vertigem, do trabalho em equipe, da organização, da responsabilidade, do dinheiro e do viver em geral que por vezes afundei em depressão, tive ataques de raiva, destruí coisas. Senti-me traído, desamparado, deformado e injustiçado pelo mundo ao meu redor. Só pude concluir que fui educado para aterrissar na idade adulta como um completo mongol.
Eis porque assumo diante da educação escolar e universitária uma atitude de "ah, meu quem vocês tão querendo enganar?".

Enfim, peço desculpas a eventuais leitores pelo clima down deste texto (que até foi revisado com bastante bom humor), por não dar destaque aos bons momentos (poucos), aos bons professores, aos amigos que fiz e as histórias tragicômicas que toda minha vida escolar gerou. Aqui eu tava mais na vibe desabafo, mesmo.
Não pretendia também propor qualquer solução para tudo que eu tanto critico, mas ocorreu-me, ao reencontrar-me com a minha própria história, fazer justamente a seguinte sugestão (ou apelo): que você, criatura que lê, não se desligue da criança que você foi, do aluno que você foi e que ainda é. Render-se à fala impessoal, difícil e falsamente moderada do mundo adulto rouba-nos nossa voz e autenticidade.
Escola é um saco!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Mais uma tira




Meu amigo Flávio quis saber se eu queria colaborar com o jornal "Ô, Xavante!", produzido por alunos da Unicamp, em sua maioria do Instituto de Artes. Topei tentar fazer umas tirinhas, e essa foi a primeira. Não ficou muito bem acabada porque foi feita com um pouco de pressa. Ainda não enviei para o povo que edita o jornal, mas espero que dê tudo certo.
Não consegui colocar um tamanho que fique bom para visualizar direto da página do blog então, clickem na imagem e sejam felizes!

Aquele abraço!