sábado, 20 de agosto de 2011

Colégio

Resolvi escrever sobre algumas considerações que tenho sobre a educação escolar que eu tive até antes de entrar na faculdade. Acho que em alguns momentos esse texto vai pegar um pouco pesado na crítica, mas nem por isso eu desacredito no que digo.

Estudei na mesma escola da quarta série até o terceiro colegial. Uma escola que sempre se elogiou pelo dito “ensino forte”. Uma escola que eu considerava adequada pra mim na época, apesar da falta de referencial. No entanto, olhando para trás hoje, não consigo considerar que estive numa boa escola. Não sei se era uma boa opção em relação às outras, mas independentemente disso, penso que não é uma escola na qual eu gostaria de ver um filho meu, definitivamente.
Pra começo de conversa, escola nada! Eu estudei foi num cursinho desde o ginásio. Simulados, provas dadas aos sábados, importância total para o desempenho em provas e estímulo à competitividade. Bom, lidar com isso tudo nunca foi difícil pra mim: eu era muito bom nesse tipo de coisa, e cheguei a ganhar bolsas de estudo em alguns períodos – além de muitos olhares tortos dos queridos coleguinhas. Mas hoje eu me pergunto, sera que eu estava realmente sendo educado? Ou estava apenas sendo treinado, conduzido? Porque cursinho pra mim não é educação, é treinamento. É um trabalho maçante e repetitivo feito em função de passar você em uma prova. O “estudo” que se faz em um cursinho não tem nada a ver com aquele que é feito em uma grande universidade, pelo menos na minha área... Fica aqui a minha indagação desesperada quanto ao porquê das próprias universidades incentivarem, através do vestibular, que as escolas e cursinhos formem criaturas estressadas, com a cabeça cheia de fórmulas decoradas e nenhum preparo para a vida em sociedade.
Escolas como essa atraem os pais (os verdadeiros clientes) com uma propagando baseada em sua capacidade de passar alunos no vestibular, muitas vezes sem que seja necessário o cursinho (como foi o meu caso). Para isso, são apresentados, com muito orgulho, e nenhum senso crítico, dados numéricos que comprovem a eficácia do colégio em passar o aluno. Como resultado, toda a educação passa a ser pensada em função desse objetivo, e a primeira coisa que vai pro saco é o bem estar da criança ou do jovem. Os diretores ficam satisfeitos em ver que as crianças estudam muito, sem se perguntar (melhor nem perguntar, né?) se a molecada está contente com isso, ou se isso se existe interesse legítimo pelo que está sendo “aprendido”.
Me lembro da diretora entrando na sala no começo do período letivo para explicar o “método” de estudo em casa sugerido pelo colégio para que os alunos tivessem o máximo aproveitamento dos conteúdos. O absurdo era tão grande que graças a Deus ficava impossível para a maioria dos alunos seguir aquele inferno. Além das 5 horas diárias dentro da escola, eram necessárias mais não sei quantas horas diárias de estudo em casa. Se o aluno tivesse alguma atividade física fora da escola (a da escola era horrível) e fizesse uma aulinha de inglês por fora (a da escola era horrível), e tivesse um sono razoável, ficava já impossível preencher a tabelinha que vinha no material didático. Você teria que desistir de fazer cocô e almoçar uns 2 dias da semana, por exemplo.
Agora, se alguém vier me dizer que acha bom pra uma criança passar todo esse tempo parado estudando, peço que tenha a santa paciência. Já dizia José Angelo Gaiarsa (autor premiado pela Academia Internacional pelo Desenvolvimento de Cérebro Infantil, e um dos meus heróis), que nossa chamada educação paralisa a criança, restringindo seus movimentos no período em que ela está aprendendo a desenvolver seu enorme potencial motor. Segundo o mesmo autor, dois terços do cérebro humano são ligados à função de movimento. Ao invés de incentivar que a criança aprenda a usar o seu próprio corpo (que é de graça, diga-se de passagem), a gente restringe o tempo todo, enquanto tenta na sua cabeça conhecimentos dos quais ela mal se interessa, prejudicando não só a motricidade, mas o desenvolvimento emocional e intelectual que viriam junto. Isso tudo utilizando modelos comunicacionais e conteúdos do século passado, que não condizem com a forma que as pessoas de hoje obtém informação (ok, essa parte eu aprendi na faculdade, através de um vídeo do Jesús Martin-Barbero, e agora acrescentei ao texto).
Para que a crítica ao meu antigo colégio não fique muito unilateral, devo dizer que houveram muitos pontos positivos. Tive alguns professores na área de humanas que contribuíram significativamente para minha formação - destaque especial para um professor de história que ensinava de forma apaixonante, além de uma professora de ética e cidadania muito querida até hoje que sempre se esforçou em levar um pouco de humanidade para aquele ambiente. Os demais professores, em sua maioria, eram pessoas muito bacanas por quem os alunos tinham bastante carinho, além de serem bons conhecedores de suas disciplinas. Mas o ensino era sempre assim, de cursinho.
O que se mostrava na escola e o que se via na vida prática eram dois universos distintos. Educação sexual? Melhor nem falar do assunto. Aquilo que se passou por educação sexual foi tímido, quase nada esclarecedor e, em certos momentos simplesmente, equivocado mesmo. Nada que encorajasse os alunos a se conhecerem, a conhecerem seus corpos, a aproveitar bem a vida sexual que se iniciaria. Quem sabe assim os garotos não construíssem todo seu imaginário em torno do sexo a partir da pornografia imbecil que circula na internet. Quando uma menina na quarta série perguntou como era possível que lésbicas transassem se elas não tinham pênis, a resposta se resumiu a "olha, querida, o que importa é o amor; se elas se amam vai ser bom". Bonitinha, a resposta, adoro que se fale de amor, mas convenhamos que foi uma bela engambelada. Acho que ninguém falou em clitóris, na maior parte do tempo.
Ademais, o espaço que se dava para que o aluno desenvolvesse aptidões artísticas era reduzido. A educação física se limitava a jogar queimada, futebol ou coisa do tipo, num espaço bastante pequeno, com aulas canceladas em dia de chuva. Os alunos menos habilidosos nessas poucas atividades se sentiam excluídos, e por sua falta de ânimo para participar eram desprezados pelos próprios professores. Eu aprendi a não gostar de educação física. Já tinha vários anos de capoeira nas costas, sabia fazer uma boa quantidade de movimentos bem bacanas com o meu corpo, mas para o professor de educação física, eu era só o perna de pau preguiçoso. A orientação para a escolha de uma carreira era feita às pressas, em episódios bastante pontuais. O despreparo dos alunos que se veem formados e precisam entrar numa faculdade é tanto que a grande maioria dos meus colegas acabou mudando de curso, seja depois de já ter entrado, seja de um vestibular pra outro, apenas (às vezes com mudanças drásticas de escolha). Eu mesmo não sei mais o que quero fazer da vida.
É questionável o que se tolera numa escola, hoje, e o que se cobra. Um aluno que apresenta problemas de sociabilização acaba passando a vida escolar inteira dessa forma (até existem medidas para melhorar sua situação, mas são episódicas e o acompanhamento me parece bem ineficaz). Você entra meio sociofóbico, começa a piorar, e sai formado sociofóbico. Simplesmente não tem problema. Preconceito entre os alunos e professores, não tem problema. Não saber trigonometria, aí sim, é problema sério! Vão te aconselhar de tudo pra você resolver isso, te mandar para o plantão e tudo mais. Aí, se você não aprender, a culpa é sua! Você é incumbido de uma responsabilidade sagrada de estudar e aprender aquilo, independente da sua dificuldade em relação a um assunto específico, ou sua falta de interesse. As notas são dadas pelos professores, muitas vezes precedidas por discursos punitivos do tipo “É, quem não estudou o quanto devia, está ganhando o que merece. Vai chegar lá na frente e vai se dar mal...”. O aluno vira quase um criminoso.

Aí muita gente vai dizer que a escola só está dando a formação que a sociedade espera. Que infelizmente não é criatividade, sensibilidade, ética e bem estar que são cobrados pelos pais, pelos vestibulares, enfim, por todos os lados. Poxa, mas que falta de ousadia! A gente vê tanto jovem angustiado, emocionalmente desequilibrado, fragilizado. Como alguém que se dedica a educar tem a pachorra de se conformar em permitir isso, e fingir que não tem nada a ver com isso. Quer dizer que é o normal é contribuir pra que se mantenha essa máquina social girando abestalhadamente, gerando desigualdade, cansaço, desentendimento e violência? Longe de mim com a normalidade então.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Tira




Olá, você que por ventura lê esse blog! Essa tira surgiu na minha cabeça num belo dia andando de ônibus por Campinas, e na minha total falta do que fazer eu tentei colocá-la em prática. Só que deu muito trabalho, porque eu não desenhava faz tempo, e porque eu não sei muito bem como limpar a imagem no photoshop... Enfim, acabei refazendo várias vezes e editando tudo no pc, mas pelo menos tá aí! E obrigado todos os amigos que que entraram pra dar aquela força e comentaram no último post...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Chefes, Chefões e Chefinhos

Há alguns anos atrás, estava eu em uma palestra promovida por meu colégio sobre a escolha de um curso universitário. O palestrante era fundador de uma faculdade particular que existe aqui na minha cidade. Enquanto fumava seu cigarrinho e falava sobre o MEC, sobre cursos diversos, universidades diversas (mais criticadas por ele que aplaudidas) e sobre sua própria instituição (apenas aplaudida), o palestrante dava espaço para que alunos e pais levantassem as mãos e fizessem perguntas relativas ao tema. Um amigo sentado ao meu lado levantou a mão para fazer sei lá que pergunta:
- Então, mas você falou agora a pouco que... - e foi prontamente interrompido.
- Pode parar por aí! Você, coisa nenhuma. É senhor. Não tá vendo que eu já tenho cabelo branco, ó?
O homem então começou a explicar o quanto ele exigia ser tratado por senhor, devido à sua posição hierarquicamente maior que a do garoto de 15, 16 anos que se dirigia inocentemente a ele. E frisou o quanto era importante que o garoto aprendesse aquela lição ali mesmo, para que jamais insistisse no erro, já que isso seria crucial na vida adulta. Contou então um causo sobre um conhecido que, ao encontrar o chefe no elevador da empresa, cumprimentou-o de maneira casual, bem humorada, do tipo “E aí, Marcão! Como você tá?”. O chefe prontamente o respondeu “Eu estou bem, mas o senhor está despedido”.
A moral da história, para o ilustre palestrante, deve ser algo do tipo “respeite o protocolo, sempre, se quer ser alguém na vida”. Sinceramente, eu acho isso o cúmulo da mediocridade! É punir uma pessoa por ser bem humorada, afetuosa e irreverente (coisa de quem sabe preservar a criança dentro de si). É tornar o mundo, a vida e as relações interpessoais algo mecânico, protocolado, impessoal, chato, hierárquico. É vestir as pessoas de uma pretensiosa respeitabilidade, um orgulho besta de quem está bem inserido na sociedade. É preparar as pessoas pra aceitar uma sociedade autoritária, e fim de papo. Não importa enquanto se justifique isso dizendo clichês antiutópicos do tipo “mas a vida é assim, a sociedade é assim”. Não adianta dizer que o chefe é mais poderoso e você precisa do seu emprego pra se sustentar se você quiser ter uma vida de verdade, se quiser ter uma família (e é claro que você quer! Não quer?). Preparar as pessoas para engolir isso é agir como quem está satisfeito com o mundo em que vivemos (esse que está se autodestruindo). É dar razão ao imbecil que demite um funcionário por não lamber o seu saco e fingir que não pensa.
Viver por viver, sendo oprimido o tempo todo e não lutando mais contra isso, não é viver, é morrer! É deixar de herança pro seu filhote a mesma merda que empurraram pra você. Uma das grandes belezas do ser humano que não é medíocre é essa insubmissão, é essa dimensão política que nada tem a ver com entrar numa fila e apertar o botão de uma urna pra escolher o menos pior. É linda essa jocosidade de quem não tá nem aí pra sua medalhinha no peito ou a sua conta no banco. Você não é, por isso, nem um pouco mais gente que o morador de rua que eu conheci outro dia.
O palestrante continuou sua palestra dizendo, dentre outras coisas, que era preciso informar-nos de que nossas vidas seriam certamente muito mais difíceis do que as dos nossos pais, que por sua vez já foram muito mais difíceis que as dos pais deles, em função do mercado de trabalho cada vez mais exigente e cansativo. A forma que ele colocava isso como certo, como dado, como fato do qual não é possível (ou aconselhável) fugir era de um conformismo de quem não vê vida para além desse labirinto capitalista, esse caminho de rato de laboratório que muita gente acha que é a própria vida, como se essa estivesse pré-determinada numa espécie de roteiro.
O homem ainda contou algumas daquelas histórias de gente bem sucedida, que se deu bem no mundo corporativo porque tinha os atributos que o mercado pedia, etc e tal. Os fodões, sabe? Frisou que para ficar rico hoje (é o que tudo mundo quer, não é? Ai de quem não queira!) é necessário trabalhar muito, como dizem todos os livros de gente que ficou rico. Muito trabalho! Como se a felicidade fosse surgir pra quem se mata de juntar dinheiro, abdicando da própria saúde, das oportunidades de amor e tudo mais que eu gosto tanto, só pra poder ter, nas poucas horas em que não está se matando de trabalhar, a oportunidade de usufruir de todo tipo de conforto e lazer que o dinheiro permite.
Tenho a impressão de que qualquer pessoa que questione essa gente sobre a possibilidade de viver de uma forma um pouco mais libertária vai logo receber a gozação “Ah, vai ser hippie longe de mim. Aqui é lugar de gente séria”. Passo longe dessa pretensa seriedade, de peito inflado e bunda pra dentro. Prefiro ser sincero, mesmo que sendo a encarnação da porralouquisse.
Devo admitir que pelo menos o senhor que deu a palestra, mostrando um lado mais humano e compreensivo, incentivou que escolhêssemos fazer aquilo que a gente gostasse (não sei se ele tinha todo tipo de profissão em mente, mas não posso acusá-lo do contrário). Disse isso pois para ele, era preciso que, numa vida conturbada como aquela que nos aguardava (segundo ele), era preciso que houvesse um mínimo de bem estar. Ele próprio disse que, já que íamos ter que estudar e trabalhar massantemente por toda a vida, em meio a tanto cansaço, deveríamos pelo menos escolher algo que gostássemos, pois já assim seria difícil encarar o mundo do trabalho. Disse também que não adiantava pensar em carreira mais promissora, mesmo, porque a coisa estava difícil em todas as áreas.
De qualquer forma continuo me opondo à visão do palestrante. O cara pinta o mundo do trabalho como uma selva em que, como fica bem implícito, alguém vai ter que se foder, e ele simplesmente se conforma com isso. Nós, os alunos que ali estávamos, membros de uma classe social privilegiada com a escola particular, tínhamos sorte de estar saindo na frente de tanta gente (se não me engano, isso foi mencionado pelo homem). Os jovens de classe baixa (a exemplo daqueles que moravam a metros de distância do local da palestra, numa favela ao lado da escola), esse provavelmente iam estar entre os fodidos. E em nenhum momento se falou, como se fala o tempo todo onde eu estudo hoje, da dívida social que a gente tinha para com aquelas pessoas, por estar tendo privilégios tão particulares. O cidadão esperto é aquele que pega isso tudo, se mata de trabalhar SABE-SE LÁ PRA QUE e enriquece. Não contesta, não luta. Leva humilhação do chefe pra casa, onde provavelmente vai descontar no filho de 10 anos, porque esse não vai mandar ele embora.
O importante é o mercado. É ser preparado pra cumprir o que é exigido de um funcionário, de um pai, de um membro respeitável da sociedade. Exigir o mínimo do que parece necessário pra ter uma vida saudável é ser extremamente utópico hoje em dia, dado o quanto a vida que nos é imposta já passou dos limites do tolerável. E ainda assim, o normal é tolerar, se você não quiser ser marginalizado. Quem, desses estressados todos, que não suportam o próprio chefe, e passam os dias repetindo as mesmas coisas, não enche a boca pra chamar o diferente de vagabundo. Quer dizer, tem que gostar de trabalhar! De ser mandado!
Ninguém tem que gostar de nada. A pessoa só vai se sentir bem fazendo aquilo que de fato gosta, aprendendo o que lhe despertar interesse, e sendo dona do seu próprio tempo. Essa coisa de ser escravo e aplaudir a própria situação pra mim é medíocre.

Postagem inaugural

- Então, né, daí eu comecei a juntar uns textos sobre essas coisas que eu escrevo. Acho que vou fazer um blog pra ir botando tudo. To tentando desenhar tirinhas também...
- Pô, boa ideia, cara! faz isso mesmo! É muito bom ter um blog.

...

É, então... Eu fiz um blog. Pretendo colocar coisas de toda natureza aqui, mas provavelmente serão mais textos que eu faço como exercício de reflexão e por necessidade de dar vazão ao meu lado ideológico. Eu escrevo esse tipo de coisa e nunca tenho com quem compartilhar, então tive essa ideia genial de fazer um blog, que eu nem sei se alguém vai ler, mas espero que pelo menos alguns amigos interessados se interessem. Também tô querendo por desenhos... Tô terminando o primeiro que quero por aqui, mas tá dando trabalho devido à ferrugem.
Descobri que não sou original pra nomes de blog, então esse veio de improviso. O fundo do Calvin também veio de improviso... Ainda quero fazer um visual mais caprichado. E por uma foto no perfil que não inclua a coitada da Bia no fundo. Mas tudo ao seu tempo...