Resolvi escrever sobre algumas considerações que tenho sobre a educação escolar que eu tive até antes de entrar na faculdade. Acho que em alguns momentos esse texto vai pegar um pouco pesado na crítica, mas nem por isso eu desacredito no que digo.
Estudei na mesma escola da quarta série até o terceiro colegial. Uma escola que sempre se elogiou pelo dito “ensino forte”. Uma escola que eu considerava adequada pra mim na época, apesar da falta de referencial. No entanto, olhando para trás hoje, não consigo considerar que estive numa boa escola. Não sei se era uma boa opção em relação às outras, mas independentemente disso, penso que não é uma escola na qual eu gostaria de ver um filho meu, definitivamente.
Estudei na mesma escola da quarta série até o terceiro colegial. Uma escola que sempre se elogiou pelo dito “ensino forte”. Uma escola que eu considerava adequada pra mim na época, apesar da falta de referencial. No entanto, olhando para trás hoje, não consigo considerar que estive numa boa escola. Não sei se era uma boa opção em relação às outras, mas independentemente disso, penso que não é uma escola na qual eu gostaria de ver um filho meu, definitivamente.
Pra começo de conversa, escola nada! Eu estudei foi num cursinho desde o ginásio. Simulados, provas dadas aos sábados, importância total para o desempenho em provas e estímulo à competitividade. Bom, lidar com isso tudo nunca foi difícil pra mim: eu era muito bom nesse tipo de coisa, e cheguei a ganhar bolsas de estudo em alguns períodos – além de muitos olhares tortos dos queridos coleguinhas. Mas hoje eu me pergunto, sera que eu estava realmente sendo educado? Ou estava apenas sendo treinado, conduzido? Porque cursinho pra mim não é educação, é treinamento. É um trabalho maçante e repetitivo feito em função de passar você em uma prova. O “estudo” que se faz em um cursinho não tem nada a ver com aquele que é feito em uma grande universidade, pelo menos na minha área... Fica aqui a minha indagação desesperada quanto ao porquê das próprias universidades incentivarem, através do vestibular, que as escolas e cursinhos formem criaturas estressadas, com a cabeça cheia de fórmulas decoradas e nenhum preparo para a vida em sociedade.
Escolas como essa atraem os pais (os verdadeiros clientes) com uma propagando baseada em sua capacidade de passar alunos no vestibular, muitas vezes sem que seja necessário o cursinho (como foi o meu caso). Para isso, são apresentados, com muito orgulho, e nenhum senso crítico, dados numéricos que comprovem a eficácia do colégio em passar o aluno. Como resultado, toda a educação passa a ser pensada em função desse objetivo, e a primeira coisa que vai pro saco é o bem estar da criança ou do jovem. Os diretores ficam satisfeitos em ver que as crianças estudam muito, sem se perguntar (melhor nem perguntar, né?) se a molecada está contente com isso, ou se isso se existe interesse legítimo pelo que está sendo “aprendido”.
Me lembro da diretora entrando na sala no começo do período letivo para explicar o “método” de estudo em casa sugerido pelo colégio para que os alunos tivessem o máximo aproveitamento dos conteúdos. O absurdo era tão grande que graças a Deus ficava impossível para a maioria dos alunos seguir aquele inferno. Além das 5 horas diárias dentro da escola, eram necessárias mais não sei quantas horas diárias de estudo em casa. Se o aluno tivesse alguma atividade física fora da escola (a da escola era horrível) e fizesse uma aulinha de inglês por fora (a da escola era horrível), e tivesse um sono razoável, ficava já impossível preencher a tabelinha que vinha no material didático. Você teria que desistir de fazer cocô e almoçar uns 2 dias da semana, por exemplo.
Agora, se alguém vier me dizer que acha bom pra uma criança passar todo esse tempo parado estudando, peço que tenha a santa paciência. Já dizia José Angelo Gaiarsa (autor premiado pela Academia Internacional pelo Desenvolvimento de Cérebro Infantil, e um dos meus heróis), que nossa chamada educação paralisa a criança, restringindo seus movimentos no período em que ela está aprendendo a desenvolver seu enorme potencial motor. Segundo o mesmo autor, dois terços do cérebro humano são ligados à função de movimento. Ao invés de incentivar que a criança aprenda a usar o seu próprio corpo (que é de graça, diga-se de passagem), a gente restringe o tempo todo, enquanto tenta na sua cabeça conhecimentos dos quais ela mal se interessa, prejudicando não só a motricidade, mas o desenvolvimento emocional e intelectual que viriam junto. Isso tudo utilizando modelos comunicacionais e conteúdos do século passado, que não condizem com a forma que as pessoas de hoje obtém informação (ok, essa parte eu aprendi na faculdade, através de um vídeo do Jesús Martin-Barbero, e agora acrescentei ao texto).
Para que a crítica ao meu antigo colégio não fique muito unilateral, devo dizer que houveram muitos pontos positivos. Tive alguns professores na área de humanas que contribuíram significativamente para minha formação - destaque especial para um professor de história que ensinava de forma apaixonante, além de uma professora de ética e cidadania muito querida até hoje que sempre se esforçou em levar um pouco de humanidade para aquele ambiente. Os demais professores, em sua maioria, eram pessoas muito bacanas por quem os alunos tinham bastante carinho, além de serem bons conhecedores de suas disciplinas. Mas o ensino era sempre assim, de cursinho.
O que se mostrava na escola e o que se via na vida prática eram dois universos distintos. Educação sexual? Melhor nem falar do assunto. Aquilo que se passou por educação sexual foi tímido, quase nada esclarecedor e, em certos momentos simplesmente, equivocado mesmo. Nada que encorajasse os alunos a se conhecerem, a conhecerem seus corpos, a aproveitar bem a vida sexual que se iniciaria. Quem sabe assim os garotos não construíssem todo seu imaginário em torno do sexo a partir da pornografia imbecil que circula na internet. Quando uma menina na quarta série perguntou como era possível que lésbicas transassem se elas não tinham pênis, a resposta se resumiu a "olha, querida, o que importa é o amor; se elas se amam vai ser bom". Bonitinha, a resposta, adoro que se fale de amor, mas convenhamos que foi uma bela engambelada. Acho que ninguém falou em clitóris, na maior parte do tempo.
Ademais, o espaço que se dava para que o aluno desenvolvesse aptidões artísticas era reduzido. A educação física se limitava a jogar queimada, futebol ou coisa do tipo, num espaço bastante pequeno, com aulas canceladas em dia de chuva. Os alunos menos habilidosos nessas poucas atividades se sentiam excluídos, e por sua falta de ânimo para participar eram desprezados pelos próprios professores. Eu aprendi a não gostar de educação física. Já tinha vários anos de capoeira nas costas, sabia fazer uma boa quantidade de movimentos bem bacanas com o meu corpo, mas para o professor de educação física, eu era só o perna de pau preguiçoso. A orientação para a escolha de uma carreira era feita às pressas, em episódios bastante pontuais. O despreparo dos alunos que se veem formados e precisam entrar numa faculdade é tanto que a grande maioria dos meus colegas acabou mudando de curso, seja depois de já ter entrado, seja de um vestibular pra outro, apenas (às vezes com mudanças drásticas de escolha). Eu mesmo não sei mais o que quero fazer da vida.
É questionável o que se tolera numa escola, hoje, e o que se cobra. Um aluno que apresenta problemas de sociabilização acaba passando a vida escolar inteira dessa forma (até existem medidas para melhorar sua situação, mas são episódicas e o acompanhamento me parece bem ineficaz). Você entra meio sociofóbico, começa a piorar, e sai formado sociofóbico. Simplesmente não tem problema. Preconceito entre os alunos e professores, não tem problema. Não saber trigonometria, aí sim, é problema sério! Vão te aconselhar de tudo pra você resolver isso, te mandar para o plantão e tudo mais. Aí, se você não aprender, a culpa é sua! Você é incumbido de uma responsabilidade sagrada de estudar e aprender aquilo, independente da sua dificuldade em relação a um assunto específico, ou sua falta de interesse. As notas são dadas pelos professores, muitas vezes precedidas por discursos punitivos do tipo “É, quem não estudou o quanto devia, está ganhando o que merece. Vai chegar lá na frente e vai se dar mal...”. O aluno vira quase um criminoso.
Aí muita gente vai dizer que a escola só está dando a formação que a sociedade espera. Que infelizmente não é criatividade, sensibilidade, ética e bem estar que são cobrados pelos pais, pelos vestibulares, enfim, por todos os lados. Poxa, mas que falta de ousadia! A gente vê tanto jovem angustiado, emocionalmente desequilibrado, fragilizado. Como alguém que se dedica a educar tem a pachorra de se conformar em permitir isso, e fingir que não tem nada a ver com isso. Quer dizer que é o normal é contribuir pra que se mantenha essa máquina social girando abestalhadamente, gerando desigualdade, cansaço, desentendimento e violência? Longe de mim com a normalidade então.
