Às vezes me desentendo com o rock'n'roll. Chego a temê-lo e a julgá-lo demasiadamente sombrio. O que me puxa para ele, entretanto, e o que me encanta nesse estilo sexual e barulhento de música, é sua organicidade, que sobrevive à eletrificação dos instrumentos e ainda funde-se maravilhosamente a ela.
A música que sai do rádio e dos canais musicais de TV nos dias de hoje tem um certo cheiro meio Pinho Sol, meio bom ar. É completamente asséptica e higienizada. Tudo afinado, todas as linhas sonoras claramente distinguíveis umas das outras, tudo cuidadosamente mixado e masterizado...
... e tudo uma bosta. Tudo chato.
Tudo se torna muito óbvio aos ouvidos, porque já vem pré-mastigado para que você receba cada canção com a passividade de uma lesma com pressão baixa. A voz é sempre muito destacada, e os instrumentos importam cada vez menos, de forma que a fruição do colorido sonoro vai para o saco. Junto dessa pobreza, vêm-se desenvolvendo formatos cada vez mais sintéticos de arquivos de áudio, limando cada vez mais as frequências sonoras menos audíveis para a maioria de nós - que ficamos cada vez mais incapazes de ouvir com precisão. Juntando todas essas observações, parece que o plano é emburrecer nossos ouvidos, quiçá atrofiá-los por completo.
Aí vem um cara como o Slash e grava um álbum com a banda toda tocando junta - como o Led Zeppelin fazia nos anos setenta - e soa tudo tão vivo, tão mais rico e mais verdadeiro...
Mesmo bandas de rock hoje em dia gravam cada instrumento separadamente. O senso rítmico dos músicos (baterista em particular) é substituído pelo pelo clique norteador do metrônomo digital, e não sobra espaço para qualquer oscilação no pulso da música. Fluidez é diferente de falta de ritmo: nosso organismo funciona de maneira ritmada (a música surge da expressão de um biorritmo, não é mesmo?), mas não robótica. O aumento da excitação nos acelera; momentos de ternura nos acalmam e baixam nosso giro.
Essa é a grande diferença que o rock'n'roll representa na música de hoje em dia. É, para a surpresa de muitas velhinhas religiosas, mais humano. Não é de porcelana, e não cheira Pinho Sol. Cheira gente, cheira pele, cheira suor, sangue, terra. O rockeiro é um ser que está em maior contato com a própria sombra, mais consciente de seus vícios e falhas, e mais propenso a chutar a porta ou meter o pé na jaca quando a ocasião pedir. Ao mesmo tempo, e justamente por tudo isso, é um ser eminentemente amoroso.
Observação importante: falo aqui de como vejo o cidadão que de fato entende e pensa o rock. Estou ciente de que são poucos e que a grande maioria dos fãs declarados do gênero (geralmente os mais preocupados com essa coisa de pertencimento a uma tribo) são adolescentes retardados de todas as idades.
Fui tentar tirar (aprender com os ouvidos) aquela porra de música chamada "Halo", do já mencionado guitarrista de cartola, e me frustrei completamente na hora de tirar o solo de guitarra, o qual ostenta uma sensibilidade e espontaneidade grandes por parte do músico, e no entanto possui trechos os quais, misturados à massa sonora da música, ficam praticamente ininteligíveis. São tocados com uma agilidade que não foi construída pela repetição incansável de exercícios técnicos (ginástica para os dedos, coisa de guitarrista nerd), mantendo um caráter até meio sujo em sua execução. Outros trechos exibem uma técnica tão peculiar ao artista que é perda de tempo aprender a reproduzi-la tal como foi registrada. Leva muito tempo, e se torna algo inaplicável em qualquer outro contexto musical, a menos que você não ligue de parecer um artista cover em tempo integral.
Frustrante ou não, a música do Slash tende a obrigar o fã guitarrista a ser autoral, mesmo na hora de tocar música alheia. Você vai ter que se ater ao que que é essencial naquilo que está ouvindo, e descobrir sua própria maneira de preencher o resto da música. Claro que tem um monte de trouxa que vai se matar para tocar nota por nota como seu ídolo, e muitos vão conseguir. Grande coisa!
Apesar do glamour idiota e da imagem de machões poderosos exibidos pelas grandes bandas, para mim o rock guarda em si o sentido de uma vida simples. São músicas orgânicas, e há uma certa paixão em seguir fazendo as coisas de maneira despojada e sendo fiel ao que se gosta, mesmo que isso signifique ser refratário ao que é imposto como novo e moderno. Rock me remete a calça jeans, a beber com os amigos, a sentar numa cadeira de balanço, a experimentar pedais de overdrive para observar que nuances podem acrescentar ao seu som de guitarra. Remete a solar usando só três dedos e estar feliz com isso.
É simples, é elegante, e é meio fuleiro, ao mesmo tempo.
Acho que gosto muito por isso.
Acho que gosto muito por isso.