Há alguns anos atrás, estava eu em uma palestra promovida por meu colégio sobre a escolha de um curso universitário. O palestrante era fundador de uma faculdade particular que existe aqui na minha cidade. Enquanto fumava seu cigarrinho e falava sobre o MEC, sobre cursos diversos, universidades diversas (mais criticadas por ele que aplaudidas) e sobre sua própria instituição (apenas aplaudida), o palestrante dava espaço para que alunos e pais levantassem as mãos e fizessem perguntas relativas ao tema. Um amigo sentado ao meu lado levantou a mão para fazer sei lá que pergunta:
- Então, mas você falou agora a pouco que... - e foi prontamente interrompido.
- Pode parar por aí! Você, coisa nenhuma. É senhor. Não tá vendo que eu já tenho cabelo branco, ó?
O homem então começou a explicar o quanto ele exigia ser tratado por senhor, devido à sua posição hierarquicamente maior que a do garoto de 15, 16 anos que se dirigia inocentemente a ele. E frisou o quanto era importante que o garoto aprendesse aquela lição ali mesmo, para que jamais insistisse no erro, já que isso seria crucial na vida adulta. Contou então um causo sobre um conhecido que, ao encontrar o chefe no elevador da empresa, cumprimentou-o de maneira casual, bem humorada, do tipo “E aí, Marcão! Como você tá?”. O chefe prontamente o respondeu “Eu estou bem, mas o senhor está despedido”.
A moral da história, para o ilustre palestrante, deve ser algo do tipo “respeite o protocolo, sempre, se quer ser alguém na vida”. Sinceramente, eu acho isso o cúmulo da mediocridade! É punir uma pessoa por ser bem humorada, afetuosa e irreverente (coisa de quem sabe preservar a criança dentro de si). É tornar o mundo, a vida e as relações interpessoais algo mecânico, protocolado, impessoal, chato, hierárquico. É vestir as pessoas de uma pretensiosa respeitabilidade, um orgulho besta de quem está bem inserido na sociedade. É preparar as pessoas pra aceitar uma sociedade autoritária, e fim de papo. Não importa enquanto se justifique isso dizendo clichês antiutópicos do tipo “mas a vida é assim, a sociedade é assim”. Não adianta dizer que o chefe é mais poderoso e você precisa do seu emprego pra se sustentar se você quiser ter uma vida de verdade, se quiser ter uma família (e é claro que você quer! Não quer?). Preparar as pessoas para engolir isso é agir como quem está satisfeito com o mundo em que vivemos (esse que está se autodestruindo). É dar razão ao imbecil que demite um funcionário por não lamber o seu saco e fingir que não pensa.
Viver por viver, sendo oprimido o tempo todo e não lutando mais contra isso, não é viver, é morrer! É deixar de herança pro seu filhote a mesma merda que empurraram pra você. Uma das grandes belezas do ser humano que não é medíocre é essa insubmissão, é essa dimensão política que nada tem a ver com entrar numa fila e apertar o botão de uma urna pra escolher o menos pior. É linda essa jocosidade de quem não tá nem aí pra sua medalhinha no peito ou a sua conta no banco. Você não é, por isso, nem um pouco mais gente que o morador de rua que eu conheci outro dia.
O palestrante continuou sua palestra dizendo, dentre outras coisas, que era preciso informar-nos de que nossas vidas seriam certamente muito mais difíceis do que as dos nossos pais, que por sua vez já foram muito mais difíceis que as dos pais deles, em função do mercado de trabalho cada vez mais exigente e cansativo. A forma que ele colocava isso como certo, como dado, como fato do qual não é possível (ou aconselhável) fugir era de um conformismo de quem não vê vida para além desse labirinto capitalista, esse caminho de rato de laboratório que muita gente acha que é a própria vida, como se essa estivesse pré-determinada numa espécie de roteiro.
O homem ainda contou algumas daquelas histórias de gente bem sucedida, que se deu bem no mundo corporativo porque tinha os atributos que o mercado pedia, etc e tal. Os fodões, sabe? Frisou que para ficar rico hoje (é o que tudo mundo quer, não é? Ai de quem não queira!) é necessário trabalhar muito, como dizem todos os livros de gente que ficou rico. Muito trabalho! Como se a felicidade fosse surgir pra quem se mata de juntar dinheiro, abdicando da própria saúde, das oportunidades de amor e tudo mais que eu gosto tanto, só pra poder ter, nas poucas horas em que não está se matando de trabalhar, a oportunidade de usufruir de todo tipo de conforto e lazer que o dinheiro permite.
Tenho a impressão de que qualquer pessoa que questione essa gente sobre a possibilidade de viver de uma forma um pouco mais libertária vai logo receber a gozação “Ah, vai ser hippie longe de mim. Aqui é lugar de gente séria”. Passo longe dessa pretensa seriedade, de peito inflado e bunda pra dentro. Prefiro ser sincero, mesmo que sendo a encarnação da porralouquisse.
Devo admitir que pelo menos o senhor que deu a palestra, mostrando um lado mais humano e compreensivo, incentivou que escolhêssemos fazer aquilo que a gente gostasse (não sei se ele tinha todo tipo de profissão em mente, mas não posso acusá-lo do contrário). Disse isso pois para ele, era preciso que, numa vida conturbada como aquela que nos aguardava (segundo ele), era preciso que houvesse um mínimo de bem estar. Ele próprio disse que, já que íamos ter que estudar e trabalhar massantemente por toda a vida, em meio a tanto cansaço, deveríamos pelo menos escolher algo que gostássemos, pois já assim seria difícil encarar o mundo do trabalho. Disse também que não adiantava pensar em carreira mais promissora, mesmo, porque a coisa estava difícil em todas as áreas.
De qualquer forma continuo me opondo à visão do palestrante. O cara pinta o mundo do trabalho como uma selva em que, como fica bem implícito, alguém vai ter que se foder, e ele simplesmente se conforma com isso. Nós, os alunos que ali estávamos, membros de uma classe social privilegiada com a escola particular, tínhamos sorte de estar saindo na frente de tanta gente (se não me engano, isso foi mencionado pelo homem). Os jovens de classe baixa (a exemplo daqueles que moravam a metros de distância do local da palestra, numa favela ao lado da escola), esse provavelmente iam estar entre os fodidos. E em nenhum momento se falou, como se fala o tempo todo onde eu estudo hoje, da dívida social que a gente tinha para com aquelas pessoas, por estar tendo privilégios tão particulares. O cidadão esperto é aquele que pega isso tudo, se mata de trabalhar SABE-SE LÁ PRA QUE e enriquece. Não contesta, não luta. Leva humilhação do chefe pra casa, onde provavelmente vai descontar no filho de 10 anos, porque esse não vai mandar ele embora.
O importante é o mercado. É ser preparado pra cumprir o que é exigido de um funcionário, de um pai, de um membro respeitável da sociedade. Exigir o mínimo do que parece necessário pra ter uma vida saudável é ser extremamente utópico hoje em dia, dado o quanto a vida que nos é imposta já passou dos limites do tolerável. E ainda assim, o normal é tolerar, se você não quiser ser marginalizado. Quem, desses estressados todos, que não suportam o próprio chefe, e passam os dias repetindo as mesmas coisas, não enche a boca pra chamar o diferente de vagabundo. Quer dizer, tem que gostar de trabalhar! De ser mandado!
Ninguém tem que gostar de nada. A pessoa só vai se sentir bem fazendo aquilo que de fato gosta, aprendendo o que lhe despertar interesse, e sendo dona do seu próprio tempo. Essa coisa de ser escravo e aplaudir a própria situação pra mim é medíocre.
Eu acho que o você deveria respeitar mais a sociedade em que vive mocinho -q (brincadeira)
ResponderExcluirDe fato, a sociedade. do mundo todo, mas a que vivemos, principalmente, entrou num buraco que é difícil de sair, a maioria das pessoas de cargo alta quer ser respetada quando a maioria é suja e os outros querem se sentir importantes tirando o humor ou até a inocencia perdendo paciência e sendo rudes por apenas um comentario sem maldade, sem querer desmerecer. Tem algo errado e ninguém faz nada para mudar
E é expondo os seus pensamentos sobre como a sociedade foi engolida pelo caos de mercado que se pode causar uma indigestão generalizada. Gostei de seu texto,continue firme!
ResponderExcluirMuito bem escrito esse texto, Dok, gostei bastante.
ResponderExcluirE a conclusão do último parágrafo, faço das suas as minhas palavras. Sem mais. Hahaha (:
Grande texto Dok, sempre achei que vc era um bom redator. De fato o ideal capitalista revolucionou não só os meios de produção mas também a cultura geral do mundo, modificando estilos de vida e ideais de felicidade, com os quais nem todos concordam, e é por isso que devemos expor nossos pensamentos de maneira crítica. Continue assim e PRODUZA ! ;D
ResponderExcluirADSHASKD show! Lembro bem dessa história e desse cara. XD
ResponderExcluirE pô, quanta embromação Shox!